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sexta-feira, 1 de maio de 2009

[ O Homem do Tempo do Homem ]



Abri meus olhos e a luz não entrou. Estranho. Como não posso ver claridade alguma em um escuro tão perfeitamente ausente de luz? Olhei ao meu redor e o frio que o meu calor produzia não iluminava o que eu pretendia ver. Virei minha cabeça umas duas ou três vezes. Ela foi de um lado ao outro, mas não se mexeu. Sentia o ar que parado, ele estava no meu pulmão, sem vontade de ir ou de ficar. Inerte igual a mim, olhando de um lado ao outro de pálpebras fechadas.

Bocejei enquanto minha boca ficava fechada e resolvi sair de onde estava. Quanto mais me levanta e erguia meus braços para escalar a escuridão acima de mim, meus braços ficavam para trás. Senti-me que ia ao mesmo tempo ficava, quanto mais frio ao me redor se tornava, mais eu permanecia aquecido. Parado, cada vez mais deitado na posição que me deixei, ficava.

Por fim, vieram estranhos cabelos finos tocarem o meu corpo. Alguns mais lisos do que outros, alguns pequenos e se mexendo estranhamente à minha volta. Gelados até, mas esses eram independentes da maioria. Ainda que, com toda essa malha a minha volta. Senti-me fraco por vezes. O meu frio queria produzir mais calor no corpo ao que, por tempos atrás, ficara atrás de mim. Um ar mais quente entrava nos pulmões sem me alimentar. A claridade aumentava e tudo ao meu redor tornava-se marrom. Levei-me, aos poucos, para depois do retângulo de mármore a minha frente.

Olhei para o céu enquanto este despejava em mim todas as lágrimas para dividir com as que eu não tinha mais em mim. O gramado ao meu redor banhava-se enquanto eu lavava-me. Meu coração não batia mais para quente assim estar. Agora eu podia mexer minha cabeça e ter livre visão da minha volta enquanto ainda permanecia estático um pouco mais abaixo. Ao me sentar, vi uma comitiva se afastando do lugar onde eu estava sentado. Tentei me erguer, mas o meu corpo não me obedeceu. Fiquei com o corpo mole, talvez pelo esforço ou pela doença. Flores postas rodeavam o mármore e ainda deu para ver alguém olhando para trás. Não soube quem era, de quem pertencia um olhar saudoso assim, entre todos os outros que se relutavam a acompanhar essa pessoa solitária (pelo menos assim penso).

Depois de muito esforço, levantei-me. Havia ainda alguns poucos a gaguejar e a enxugar as lágrimas de quem estivesse por perto. A chuva escondia a tristeza sob os guarda-chuvas negros que se esvaiam do local. Minha febre só aumentava com o vento gélido que me transpassava. O esquecimento ia aos poucos deixando lugar para as lembranças e as memórias de uma vida que, aos poucos, eu me esquecera enquanto caminhava com os que compartilham a dor de uma partida.

Olhei para baixo e li a seguinte sentença:

 

“Aqui jaz o homem do nosso tempo”

 

Engraçado os defeitos que esquecemos, os maldizeres que proferimos, ou as vezes que deixamos alguém dependendo de nós sem corresponder. Passei uma risca sobre a frase. Abaixo, escrevi:

 

“Não deu tempo. Mas se tempo houvesse, faria mais do que eu mesmo estava impedido de fazer”.

 

Caminhei na direção que a minha sanidade quis. Foi melhor assim.

 

Lucas Macedo Lopes

1 de maio de 2009


~/Ł/~

2 comentários:

Luana Silva disse...

lendo esse seu texto, dá pra enxergar mil sentidos a esse coquetel de sensações que você descreveu. aguça a imaginação. :)

danilo disse...

muito a escuridão, frio, lágrimas e outros sentimentos misturando-se, o ser humando é capz de tudo isso, bom para todos.

O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós - Jean-Paul Sartre