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sexta-feira, 17 de julho de 2009

[ Falatórios ]


- Você vai?

- Vou!

- Tem certeza?

- Claro, por que eu não teria?

- Sei lá, você está hesitando tanto...

- Eu?! Quem disse?

- Não precisa alguém dizer, basta ver nos seus olhos...

- Bobagem.

- Bobagem?

- Sim, bobagem.

- Bem, eles lhe traem toda vez que olha para lá.

- Como você sabe? Eu não fico olhando para você!

- É, mas quando você se vira e me encara, eles pedem por socorro.

- Deixe de tolice. Eu não voltaria atrás.

- E por que não?

- Ué, porque eu já fiz a minha decisão e você não me fará voltar atrás.

- Mesmo os seus olhos me dizendo o contrário?

- Claro, até porque olhos não falam.

- Não é porque você está dizendo o contrário que eu não vá saber.

- Tolice.

- Tolice?

- Pura tolice sua. Por que eu não devo continuar?

- A questão não é se deve ou não: e sim a sua coragem de fazê-lo.

- Mas posso muito bem continuar

- Mas não tem a coragem.

- Dúvida que eu não o faça?

- Disso eu não duvido, mas você sabe que é um caminho sem volta...

- Sei, sei...

- Por isso ainda estou aqui.

- Como assim? Você duvida se eu vou ou não e já esteve aqui antes de mim?

- É... Chato admitir, não é?

- Agora é o sujo falando do mal lavado...

- Mas você não entende...

- Eu não entendo? Eu estava prestes a continuar e você começou com essa ladainha!

- Já viu como o a vista daqui é bela?

- Hã? O que...

- A vista. Está vendo como é bela?

- É... Realmente.

- Então, para que ir lá se você pode muito bem ficar aqui apreciando tudo isso?

- Isso pode ser tudo para ti, mas para mim é o mínimo.

- Tem certeza?

- Certeza eu não tenho, mas do que me vale uma paisagem apenas contemplativa?

- É a melhor certeza do que esses caminhos tortuosos, com toda certeza!

- Tortuosos? Só por que você teme o que não conhece...

- Mas por que não fica aqui comigo?

- Porque é provável que eu enjoe.

- Mas não há nada para se enjoar!

- Bem, posso enjoar de mim mesmo, de ti e da paisagem, não?

- Mas como, bela assim?!

- Essa beleza morre algum dia, ou eu morrerei antes que isso aconteça.

- Bem, você quem sabe...

- Você vai mesmo?

- Vou não, já estou a caminho.


Lucas Macedo Lopes

17 de julho de 2009

~/Ł/~

quinta-feira, 18 de junho de 2009

[ Exílio ]


- Bem, é assim, sabe...


Interrompi-a estendendo a minha mão em um movimento não muito brusco. Não estava dando a atenção suficiente, bebendo os goles irregulares que o bebedouro me agraciava. Há tempos que espero por essa conversa e não queria que uma sede atrapalhasse tudo.


Ao olhá-la, escorada, perto, algo ficou estranho depois que mostrei-lhe minha mão. Ficara nervosa e não entendi o porque dos seusolhos começarem a ficar cheios d’água. Ela se virou em tomou o rumo do corredor que levava aos banheiros. Vendo-a correr assim, cabelo ao vento escondendo o rosto, nem me passara o que eu tivesse feito para tê-la deixado assim. Tentei acompanhar seus passos já tão distantes dos meus.


Mais a frente, ela se apoiara na parede na tentativa de se recompor. Tentei olhar em seus olhos marejados que, de quando em vez, queriam se enxugar mas não queriam se mostrar fracos à um estranho, à mim. Ela se desvencilhou dos meus olhares e tomou o rumo contrário ao que tinhamos feito, querendo me deixar preso ao seu prórprio passado, sem a intenção de mínima pretenção de me deixar fazer parte de seu futuro.


Olhei-a passar por mim assim, serena, sem se mostrar em fúria que é resultado da dor que tomara o seu ser. Seu semblante voltara a relaxar, deixando se mostrar um pouco da sua habitual cara de sonsa, desligada de quaisquer eventos futuros, ignorando o aflito protagonista desta trama, sem saber das vígulas que ainda estavam por vir. Trama essa que tomara os rumos inesperados de uma sexta-feira à noite para prender o telespectador até a próxima segunda-feira.


Segurei-a para que não fugisse mais, para que não sumisse, para que o medo maior fosse do que seriamos quando saissemos daquele corredor abarrotado de olhares esparsos conhecidos. Ela parou ofegante ao me encarar, escondendo o choro que começara a não controlar mais. Segundos de eternidade plena de uma profusão de sentimentos. Passei a mão em seu rosto para que ela não se desperdissasse em lágrimas, indo de encontro a um lugar onde será pisada por tudo e por todos.


- Calma, certo? – disse assim, sem saber que dizia.


Ela apenas me olhava. Seu cabelo já não se revoltava mais com o vento. Eu apenas a olhava. Minha camisa ainda não secara da correria que tive que fazer para não perdê-la de vista. Mas, mesmo assim, tão perto, tão longe de mim, distantes um do outro, por causa de uma música, um evento inusitado. Apenas a execução de um tema que tornou tudo o que fizemos, em nove dias de desencontros, o exílio de nossas vidas. Nada mal o que uma seresta pode causar, bem mau o que depois eu vim a colher. Por fim o fim que não veio mais cedo. A espera pela fala vacilante que não vem.


- Certo... Bem, é assim, sabe...



Lucas Macedo Lopes

18 de junho de 2009

~/Ł/~

quinta-feira, 11 de junho de 2009

[ Quilmes e Arranhões ]

Pus o que sobrara do cigarro na beira do meu copo. A brasa ainda queimava a ponta antes de mergulhar no que restara da Quilmes Cerveza. Apesar de argentina, foi um trago apreciável. Olhei no relógio a hora que a bateria tinha parado. Naquela altura, a hora não importava mais.

- Sua vez – murmurou meu companheiro

- Já vai

Olhei pra mesa, a luz da luminária dando um ar “misterioso” que era constantemente quebrado pelo vai e vem dos garçons e dos bêbados que ali passavam. Passei o giz para ver se ele me dava alguma visão de como não cegar e ainda conseguir colocar na caçapa. Não, não dava. A bola branca passou ligeira de uma lado ao outro da mesa e deu para raspar na vermelha.

- Quem tem sorte, é outra coisa... – falou com a falta da graça de não ter me visto perder a partida e deu outro gole no que sobrara da sua cerveja.

- Sorte é? – Acendi mais um cigarro e pus-me a observar o movimento. Chovia um pouco lá fora, os carros passavam loucos em direção ao bar do outro lado da rua, uma esquina de diferença. Não ria mais das tentativas de não cegar a bola do meu oponente. Depois de tantos goles era normal ele estar alegre assim. Era normal eu ficar alegre assim.

Outra tacada mal feita e desarmei duas das minhas jogadas. Não importava mais, as baforadas já me acalmaram. Olhei para fora, alguns casais de bêbados se divertindo com meia tequila em suas mãos e arriscando suas vidas de um lado ao outro da rua.

- Outra vez sua vez...

- Eu sei, eu sei... – respondi impaciente.

Não que eu não estivesse ligeiramente de sã consciência, mas ainda não tinha me desligado por completo do mundo que eu me sustentava pelos pés. A noite foi adentrando, a música aumentara bem como o número de vagabundos que rodeavam os mais desatentos.

- Sabe de uma coisa? – falei-lhe em um sussurro – Só mais uma Quilmes e vamos para um lugar mais animado?

- Humm, pode ser, aqui não tem muito que fazer além da sinuca..

Concordamos. Brindamos por qualquer coisa que tenha vindo a nossa mente e esperei pacientemente terminar meu quarto cigarro da noite. Após devidamente pisado, fui ao volante conduzindo o destino da nossa noite. Quem olha, até pensa que um Tempra não é indicador de importância para ninguém. Não estávamos preocupados com isso mesmo, apenas em achar uma vaga para estacioná-lo no meio de tantas vielas e bares abarrotados.

Entramos em um que nos pareceu organizado. Identidades foram mostradas, revistas foram feitas, mas isso não garante muita coisa. Lá pras tantas, alguém se engraçou pela companheira do outro, duas garrafas quebradas, os mais variados cortes, dois homens indo ao hospital e uma mulher envergonhada esperando o taxi para ir para o mais longe daquele pesadelo seu.

Duas prostitutas nos olhavam a umas poucas mesas de distância. Joguei meu cigarro no chão e apaguei como se ali, uma barata estivesse. Uma última baforada.

Levantei-me.


Lucas Macedo Lopes

11 de junho de 2009

~/Ł/~


sexta-feira, 1 de maio de 2009

[ O Homem do Tempo do Homem ]



Abri meus olhos e a luz não entrou. Estranho. Como não posso ver claridade alguma em um escuro tão perfeitamente ausente de luz? Olhei ao meu redor e o frio que o meu calor produzia não iluminava o que eu pretendia ver. Virei minha cabeça umas duas ou três vezes. Ela foi de um lado ao outro, mas não se mexeu. Sentia o ar que parado, ele estava no meu pulmão, sem vontade de ir ou de ficar. Inerte igual a mim, olhando de um lado ao outro de pálpebras fechadas.

Bocejei enquanto minha boca ficava fechada e resolvi sair de onde estava. Quanto mais me levanta e erguia meus braços para escalar a escuridão acima de mim, meus braços ficavam para trás. Senti-me que ia ao mesmo tempo ficava, quanto mais frio ao me redor se tornava, mais eu permanecia aquecido. Parado, cada vez mais deitado na posição que me deixei, ficava.

Por fim, vieram estranhos cabelos finos tocarem o meu corpo. Alguns mais lisos do que outros, alguns pequenos e se mexendo estranhamente à minha volta. Gelados até, mas esses eram independentes da maioria. Ainda que, com toda essa malha a minha volta. Senti-me fraco por vezes. O meu frio queria produzir mais calor no corpo ao que, por tempos atrás, ficara atrás de mim. Um ar mais quente entrava nos pulmões sem me alimentar. A claridade aumentava e tudo ao meu redor tornava-se marrom. Levei-me, aos poucos, para depois do retângulo de mármore a minha frente.

Olhei para o céu enquanto este despejava em mim todas as lágrimas para dividir com as que eu não tinha mais em mim. O gramado ao meu redor banhava-se enquanto eu lavava-me. Meu coração não batia mais para quente assim estar. Agora eu podia mexer minha cabeça e ter livre visão da minha volta enquanto ainda permanecia estático um pouco mais abaixo. Ao me sentar, vi uma comitiva se afastando do lugar onde eu estava sentado. Tentei me erguer, mas o meu corpo não me obedeceu. Fiquei com o corpo mole, talvez pelo esforço ou pela doença. Flores postas rodeavam o mármore e ainda deu para ver alguém olhando para trás. Não soube quem era, de quem pertencia um olhar saudoso assim, entre todos os outros que se relutavam a acompanhar essa pessoa solitária (pelo menos assim penso).

Depois de muito esforço, levantei-me. Havia ainda alguns poucos a gaguejar e a enxugar as lágrimas de quem estivesse por perto. A chuva escondia a tristeza sob os guarda-chuvas negros que se esvaiam do local. Minha febre só aumentava com o vento gélido que me transpassava. O esquecimento ia aos poucos deixando lugar para as lembranças e as memórias de uma vida que, aos poucos, eu me esquecera enquanto caminhava com os que compartilham a dor de uma partida.

Olhei para baixo e li a seguinte sentença:

 

“Aqui jaz o homem do nosso tempo”

 

Engraçado os defeitos que esquecemos, os maldizeres que proferimos, ou as vezes que deixamos alguém dependendo de nós sem corresponder. Passei uma risca sobre a frase. Abaixo, escrevi:

 

“Não deu tempo. Mas se tempo houvesse, faria mais do que eu mesmo estava impedido de fazer”.

 

Caminhei na direção que a minha sanidade quis. Foi melhor assim.

 

Lucas Macedo Lopes

1 de maio de 2009


~/Ł/~

sábado, 28 de março de 2009

[ Faz de Conta que Passou ]


Abri meus olhos. O teto parecia mais escuro com o tempo nublado lá fora. Os braços dela circundavam meu tórax e o seu nariz esquentava o meu pescoço. Nada mal, a fronha no chão, nossas roupas espalhadas pela casa, um lençol ainda úmido pela nossa comemoração. Um ano. Não que nós já não tivéssemos feitos antes, mas nunca fomos tão livres para fazê-lo assim ao ponto de deixar o meu apartamento igual a um campo de guerra. Contemplei o teto mais uns instantes, passando minha mão sobre o cabelo dela enquanto a minha outra tentava diminuir a minha dor de cabeça. Beijei-lhe a testa. Ela sorriu um sorriso de quem sonha acordada, e fiquei sentado à beira da cama.

Nem parece que tudo o que fizemos era realmente uma comemoração. Minhas pernas se relutavam em caminhar na direção do chuveiro. Resolvi ligar a banheira e esperar a coragem chegar. Meus olhos fundos no espelho não eram de alguém que estava em sã de consciência. Estava quebrado não só por termos escorregado quando estávamos sobre a mesa, mas durante a semana inteira passei adiantando a papelada no escritório para ter uma noite para nós.

Era o gelo da água tomando de conta da minha pele enquanto o calor da noite ainda transpirava na minha pele. Peguei o pouco do vinho que restara e fui terminando aos poucos, saboreando o que era possível de uma bebida a temperatura ambiente. Da porta, a via toda desleixada como nunca vira antes. Um ano e, mesmo assim, ela continua uma estranha para mim.

Cada golada era como se fosse um gato arranhando a minha garganta. Mas o pior não era o vinho: era saber que todo o tempo que eu passei ao seu lado não deu para saber nem um décimo de quem seria. O que foi aquilo no jantar anterior. O álcool liberou veredas de nossa própria existência que eu nunca sonharia que existiam.

Já tive outros pormenores. Costumava projetar nos outros o que eu achava que eram e acabava me enganando (e sendo enganado) quase sempre. Depois que se aprende a lidar com isso, não tem como cair no mesmo conto duas vezes. Mesmo passando um ano inteiro com ela não me permitiu saber nem ao menos qual é a sua essência. Olha para ela já tive alegrias e tristezas, mas esta garrafa em minha mão praticamente não fala e só me traz amarguras.

Enxuguei-me. Pus a toalha para estender e fui colocar uma roupa leve para ver o que as nuvens não deixavam o sol ver. O mundo acordava novamente e eu a olhar cada um levando a sua vida maquinalmente, desejando para que a festa da vida seja eterna e o trabalho mínimo. Não, mesmo assim eu não conseguia relaxar por quem dormia na minha cama. Depois de todo esse tempo, será ela quem vai me agüentar por um tempo relativamente curto – até a melhor idade, talvez?

Comi alguma coisa para ocupar meu pensamento com outra coisa, mas há algo faltando. Será aquela vontade de se aventurar a caça por esses becos da cidade? Novas pessoas ou novos amores? Já é um trabalho dos grandes ter que conquistar a dorminhoca todo o tempo. Mas não tenho que provar mesmo para ela, é dogmático por si só.

Peguei a garrafa d’água, abri a porta com cuidado para que o barulho não a perturbasse, mas não deu outra.

- Amor, cê está indo pra onde?

- Caminhar um pouquinho só.

- Hum – disse se espreguiçando – não se esqueça dos pães.

- Tudo bem, só vai ter que esperar mais que o usual.

Não respondeu. O sono foi maior. Fechei a porta e girei a chave umas duas vezes.

Pães.


Lucas Macedo Lopes
28 de março de 2009

~/Ł/~

domingo, 8 de março de 2009

[ Tanto tempo, nesses tempos ]


- Falou, Joy.

- Até, rapaz.

Olhei para a tempestade que fazia fora da varanda da casa do meu amigo. Não era nada de mais. Meu sobretudo só não cobria a minha cabeça. Ajeitei a gola para que molhasse menos o meu pescoço e segui em frente, com a chuva a encharcar os meus óculos.

Cervejas aos sábados não faz mal a ninguém. Dois amigos de muito tempo, com uma rotina semanal de vasculhar o fundo de um baú de lembranças tão revirado quanto as nossas próprias vidas, sem nunca achar uma novidade no passado ou uma certeza para o futuro. O único saber meu era o álcool, que a muito lutava com o meu sangue para saber quem circulava primeiro no meu corpo. Cada poça de água que eu tentava me livrar, um banho certeiro de um motorista qualquer.

Sem o luar numa noite como esta é igual ao bairro do meu amigo sem as eventuais prostitutas. Algumas bonitas – não minto – mas não era motivo para me servir delas todas as vezes que atravesso essas esquinas. Há muito deixei de julgar suas decisões, assim como do resto dos estranhos que conheço. Não se dá para saber, ao certo, que caminhos as levaram para aqueles becos deploráveis. Mas o que me leva para todas as quintas por esses becos é a certeza de que o tempo passa e os nossos companheiros se resumem a alguns poucos chopes.

Meus dedos brincando com as chaves nos meus bolsos bem molhados, e todos aqueles desejos dos outros passando pela minha cabeça. “Quero logo o final-de-semana!” ou “E essas férias que não chegam logo...”. Para que aproveitar apenas dois, dos sete dias de uma semana que se tornam cada vez mais curtas? Não, não, prefiro que o sábado ainda demore mais para chegar enquanto eu estou preso no meio de uma terça-feira. Até aquela chefa insuportável está virando uma pessoa aturável para mim – meus colegas da firma dizem que eu estou ficando no louco, no final das contas.

Dias curtos para quem trabalha, noites longas para quem espera sob um ponto de ônibus. As ruas desertas não me animaram com o rio que corria por entre elas. Prefiro continuar o meu percurso a pé. Caminhando um pouco mais, vi uma padaria aberta. Um café viria a calhar.

- Bom dia, senhor, o que deseja?

- Hum... um café, tem como?

- Bem, a menina do café não chegou ainda, mas vou lá dentro ver o que eu tenho. – respondeu graciosamente a atendente.

Do lado de fora, a pilha de jornais bateu com força na porta do estabelecimento. Cinco da manhã e nem sinal do sol aparecer. Na manchete, letras garrafais dizendo “Feliz dia das Mulheres!”, um caderno no jornal especialmente feito para aquele domingo, oito de março, e eu a ler a comemoração internacional.

Sentei-me.

Olhei para a xícara posta sobre o balcão e fui me esquentando um pouco a cada gole, enquanto a atendente recolhia os jornais e esperava os outros funcionários chegarem.

- Isso que é disposição!

Surpreso, olhei para a mão posta sobre o meu obro, e uma amiga de tempos sorria para mim. Foi interessante ver o que o tempo tenta fazer com alguém. Apesar de ter eventuais marcas de sua vivência, ele continuava linda como era nos tempos dos estudos.

- Não se preocupe, nos falaremos ainda – disse ao me despedir dela e vê-la sumir no meio da chuva que caia.

Essa vida com tantos compromissos inúteis e o que realmente importa vem todo domingo comprar pães aqui. Não quero que as férias cheguem logo, ou que as semanas se resumam a dois dias. Nem pensar em desperdiçar uma noite sem luar ou manhã sem sol. Essa vida moderna que não nos deixa aproveitar as simplicidades que a vida tem a oferecer. E não é raro encontrar alguém que reclame o tempo passa rápido.

- Tanto tempo, nesses tempos, e nem vemos.

Sorri.



Lucas Macedo Lopes

8 de março de 2009

~/Ł/~

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

[Dama de Preto]


O tremor do onibus não me deixava cochilar. Era um balançar tão grande que era capaz de conseguir um galo só de tentar escorar minha cabeça no vidro. O sol, quente como sempre, não deveria ter se atrevido a aparece hoje. A chuva estava tão agradável, o clima tão ameno. Mas aqui estou a caminho do outro lado da cidade.

Passei pela catraca enquanto entrávamos no terminal. Pelo horário até que estava vago. O número de lendas urbanas não era tão grande assim para me fazer contar aos que eu visse até o final do dia. Paciente, aguardei o próximo tormento me conduzir até a casa do Arraes. Não era grande coisa: uma Brasília e um Gol 98 na garagem, paredes por pintar e várias caixas para serem empilhadas e arrumadas. É, amigo ajuda amigo.

O bafo do mormaço só era amenizado pelo vento da janela que entrava quando o motorista do ônibus queria chegar ao seu próximo ponto. Numa determinada hora, pela porta dianteira, um senhor subiu os degraus e se sentou ao meu lado. Ele era uma das pessoas mais “normais” que vi que haviam sentado ao meu lado. Não que a prostituta da quinta passada fosse feia ou que a estudante de faculdade – de todas as terças e quintas – fosse causar algum incômodo com aquela habitual pilha de bíblias estudantis. Era só um velho que não aparentava ter problemas.

Os meus? Este ônibus é um deles. Eu até conheci uma pessoas legais. A tia dos salgados que toda sexta passa pelo terminal? Ela é uma pessoa muito querida por todos, mas todas as minhas dores de cabeça... Não falo dessas dores por ter fulano ou beltrano me estorvando para conseguirem algo de mim. É só o cansaço de tudo. Eu até pensei em me mudar. Quando vi todos os incômodos com o Arraes com as questões da mudança, preferi me mudar só daqui a seis meses ou mais. Assim ele poderá me ajudar com a minha mudança...

- Calor, né? – comentou o senhor

- Um bucado, até – respondi num suspiro.

Uma parada brusca, três ou quatro desceram e um tanto outro subiu.

- Quer ver uma mágica?

- Mágica? – um senhor, que eu achava respeitável, agora vira um velho gagá?

- É sim, meu filho, não quer ver uma?

O ônibus seguiu a sua viagem e eu olhava para fora, tentando entender o que levaria alguém mostrar mágicas para outrem no coletivo.

- Tudo bem, qual é a sua?

Ele tirou um baralho, um tanto gasto, de um dos seus bolsos. Misturou um pouco as cartas com suas mãos enrugadas e me pediu para que eu escolhesse duas. Tomei ao acaso. Dupla de 10, um de ouros e o outro de espada.

- Meu filho, me devolva essas e tente novamente. Um par tão inconveniente só irá lhe trazer mais dúvidas que respostas.

- Ta... ta certo – o baralho nem de cartomante era e ele sábia que eu tinha um par nas mãos. Ele embaralhou mais demoradamente, ele procurava algo na janela contrária a nossa que eu não soube responder. Dessa vez não fora um par: rainha de espadas e um ás de copas.

- Acho que, se eu fosse você, beberia com o Arraes ao invés de ajudá-lo com a mudança. - Como assim? É o avô dele ali disfarçado ou é um desses malucos de ônibus? - Deixa eu te explicar, rainha de espadas significa mulher má e ás de copas significa declaração ou palavras de amor. Você está apaixonado por alguém?

- Eu... assim... – como é que eu falo algo assim para um doido da vida? – de certa forma, sim...

- Então esqueça, isso só irá lhe trazer decepção e certamente será traído. Eu não cobro pelos meus serviços mas, mesmo assim, tenha uma boa tarde! – e como sua idade não fosse empecilho, andou rápido, igual a um menino, em direção a porta, pulou na calçada e seguiu o seu rumo.

Olhei para as duas cartas na minha mão. Ás e rainha. Uma mão boa para se jogar em uma partida de poker mas não para ser seguido em vida. Que velho mais estranho.  Mais estranho sou eu em acreditar em uma bobagem dessas. Bobagem, bobagens... Quer saber? Deixei a carta de copas ser amassada pela roda do próxima carro que viesse. Encarei a dama de preto na minha carta. Ela será uma mulher tão má assim? Bobagem. É só uma carta mesmo. Bobagem em eu não acreditar.

Deve ser só mais uma bobagem dele. Ou minha. Ou não.

Ou bobagem.


Lucas Macedo Lopes

28 de janeiro de 2009

~/Ł/~


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

[O Xadrez e O Eu]



-Mais sorte na próxima!

Engraçado, sempre eu perco para esse senhor. Não consigo ser mais ágil que ele. Sempre vestido com alguma camisa listrada; alguns botões fora das suas casas, deixando a mostra o que o tempo fizera com os poucos pelos que cobrem o seu peito. Os óculos diziam, sem palavras, que necessitavam de um bom descanso, pois a sua função já fora cumprida há tempos.

Costumava jogar quando tinha 14, 15 anos e não era um dos melhores jogadores. Para alguém jogar como aquele senhor, deve levar anos para se chegar com aquela perspicácia. Nem quando assistia aos campeonatos que eram organizados no meu saudoso Colégio Rui Barbosa. Mas a destreza com que ele movia as peças era incrível.

-Está pronto para mais uma lição?

-Não, não – falei em meio as minhas risadas – Tenho que ir para a minha casa, não almocei ainda e já são quase três da tarde...

- Sem problemas meu filho, ainda iremos nos ver amanhã, não é?

- Com toda a certeza! Eu não dispenso uma boa partida de xadrez!

Arrumei as minhas peças, coloquei-as dentro da maleta do tabuleiro e fui caminhando em direção à minha morada. Não é bem um apartamento: um modesto cubículo, para ser franco. É uma construção antiga, aparenta ter sido construída na Fortaleza da década de 70, ou quem sabe 80. As paredes externas são devidamente ladrilhadas com cores de tons claros, mas a sujeira costuma esconder a verdadeira beleza do antigo edifício. Quatro andares, sem elevador, como era de praxe, para que o preço de cada cela (como os meus amigos costumam chamar o meu lar) não encarecesse o condomínio.

No carnaval, a cidade parece deserta, só você perambulando pelas ruas, sem se preocupar em olhar por cima do ombro, certo ar de tranqüilidade de cera. Deparei-me com os portões que dividem o caos urbano da calma aparente.

-Bom dia rapaz!

-Opa! Já voltou da praça? – Falou surpreso o zeladora

-Não estava muito disposto para continuar a jogar...

-Cansou de perder?

Rimos.

Um lance de degraus até o quarto andar e um amigo meu fica com falta de ar. “Asmático, talvez” diriam quem não o conhecesse, mas é que a sua obesidade preocupa a mim e a ele. Ele está na fila do SUS para conseguir uma redução de estomago. Até lá, o acompanho em algumas atividades físicas mais diversificadas, como andar, arriscando de vez em quando uma corrida. Cansamos do levantamento de copo, podíamos até afogar em nossas mágoas no bar do Juarez, mas elas não morrem tão facilmente.

Sem querer, os meus pés vão de encontro às baratas que aparecem no corredor. Movimento involuntário que me acostumei. Não que eu estivesse ali para acabar com a praga, não há heroísmo envolvido ao ouvir o som da casca sendo dilacerada pelos Newtons que a minha perna imprime. Apenas o medo que move o meu corpo para que essa sensação não volte tão cedo.

Esparramei-me no sofá-cama.

A melhor sensação de se estar em casa é deitado naquelas almofadas. O balcão dividia a parte da cozinha do resto dos outros cinco metros quadrados, dividos respectivamente com um par de cadeiras forradas com palhas, um aparelho de rádio com um daqueles modernos sistemas de Toca-Discos e o meu sofá. Meus livros ficam espelhados pelas prateleiras improvisadas pela sala. Um deles é usado como encalço do meu antigo sofá.

Mas não tenho o que reclamar. O vizinho de cima é um casal de idade, ruídos são raros de se ouvir. No meu corredor, ou são senhoras de idade, ou é alguém que não tem aonde cair morto e foi parar ali por falta de opção. Não que eu reclame do meu covil ou dos que me rodeiam, pelo contrário, aquele lugar satisfazia as minhas necessidades, não há motivos fortes para reclamar.

Sentei-me em uma das cadeiras e arrumei as peças do meu tabuleiro. Era intrigante o modo com que o senhor sempre me derrotava. Durante semanas remontei jogadas e descobri falhas que logo eu corrigia. Mas uma tarde jogando, sempre vejo que há alguma brecha que é usada contra mim.

-E se eu for por aqui...

E passei alguns minutos contemplando as peças arrumadas, o rei das peças brancas em xeque pelo meu bispo e um peão.

-Engraçado...

Fui até o as dependências da minha modesta alcova, com o branco das paredes amarelando com o tempo e descascando, deixando quase nuas as imperfeições que o tempo deixou por todos os lados. Despi-me e coloquei as minhas roupas em um canto próximo a minha cômoda. Olhei para os livros que ficaram para serem estudados ontem. Psicologia não é ruim, mas a teoria parece tão densa as vezes.

Olhei pela a janela, com as venezianas de madeira comida pelos cupins, e pus a admirar o branco das nuvens contrastando com o azul límpido do céu de um dos mais calmos domingos que você pode encontrar ao decorrer um ano. A moldura de madeira contrastava com os prédios que surgiam ao fundo e com as casas próximas, lembrando uma paisagem provinciana. Há hábitos que não mudam com o passar do tempo.

Um banho frio era o que eu estava precisando. Soube no instante que senti as gotas gélidas passarem pelo meu corpo. A preguiça costuma tomar conta de mim antes de entrar embaixo do chuveiro. Uma vez banhado, a preguiça some e cede espaço a mais para que eu possa raciocinar e pensar nas coisas cotidianas. Perca de tempo para alguns, mas passatempos têm-se aos montes.

Procurei no fundo do meu armário, perto das fotografias, e ao lado dos papéis de presentes guardados por anos a fio, um disco de um colega meu de faculdade. Um verdadeiro bolachão: Meddle do Pink Floyd. Magnífico era a palavra mais usada por ele para descrever o conteúdo. Ele me emprestara o álbum do pai dele para mostrar o poder musical dos 23 minutos Echoes.

Olhei para o tabuleiro novamente, para as peças que caíram em combate para atingir o objetivo do comandante. Uma torre, os dois cavalos, por pouco o rei não ficara viúvo e quatro peões.

Peão.

Era isso que sempre fora, o peão que é bucha de canhão, aquele que é sacrificado.

Mas como não pensara naquilo há mais tempo?

Na verdade, somos todos peões de um mesmo tabuleiro lutando uns contra os outros. Não importa o credo, etnia ou pátria amada, nós vivemos em meio aos conflitos dos interesses alheios, pois são eles que fazem com que as peças se movam e deixem o rei (no caso, os objetivos de cada um a serem conquistados) em xeque-mate. Observemos a nossa vida como se fossemos peões. Estamos na linha de frente, para dar forma aos sonhos e desejos que temos. Atrás estão as peças mais importantes, ou ideais que cada um carrega. É guarnecido pelas sombras delas que podemos nos espelhar para seguir em frente.

Mas a cada movimento que acontece, reviravoltas são inevitáveis. Nossos primeiros obstáculos são fáceis e simples como os peões adversários, mas qual seria a graça se fosse sempre assim?

Dependendo dos sonhos de cada um, - que é o que nos difere quanto à posição dos peões – será definindo se seremos aquele que se despede logo no inicio da partida, ou então que da suporte para uma jogada maior, mas, e quanto a nossa capacidade de realização? Partindo do pressuposto de que o peão só pode seguir em frente, logo não há um porque para querermos dar meia-volta (ou, para os mais temerosos ou com algum outro tipo de receio, querer parar no meio do tabuleiro sem arriscar).

Logo, um dos objetivos do peão é chegar ao outro lado do tabuleiro. Qual será a sua recompensa por tamanho esforço? Transformar-se em uma rainha. Ampliam-se os horizontes, visto que o peão pode andar apenas uma casa para frente e derrotar alguém quando estiver em sua diagonal. Entretanto, a rainha pode mover-se em todas as direções, andar quantas casas quiser. Querer jogar apenas com esse “peão promovido” é querer alimentar seu superego. Não é à toa, que se fosse depender apenas dele, toda a sua tática fora jogada fora.

Não se deve esquecer quem você fora outrora, pois você servirá de exemplo para alguém, e é provável que essa pessoa a use para completar o seu tabuleiro, espelhando-se naquele peão que agora se transformou em uma rainha. Não deves pisar nos peões que ainda sobram e sim guia-los para conseguirem os seus objetivos. Mas a nova majestade não deve esquecer daqueles sonhos que foram deixados pelo caminho, ou das táticas que foram errôneas. Elas servem de exemplo e aprendizado, para não deixar que os erros se repitam. Da mesma forma que evoluímos de hierarquia no xadrez, não esqueçamos do que nos faz indivíduos: As nossas mentes!

Devemos buscar evoluir mentalmente, amadurecendo com as experiências e novos ideais, para assim podermos apagar os sonhos do mundo da fantasia e transformá-los em realidade.

Xeque-mate.

-Amanhã veremos quem ganhará!



por Lucas Arts




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sábado, 19 de janeiro de 2008

[Calça, Doce Mancha e a Bela e seu Sorriso]




-Há não!

Pois é, acontece com todos. Eu preferia que ele não tivesse resolvido cair ali, e sim, não estivesse desequilibrado da palheta, para assim poder saborear o morango com suspiro. Agora, aquele pedaço de sabor inigualável estava ali: Manchando a minha calça. Alguns acham o gosto de morango motivo para ter enjôos, mas eu gosto. Quem não provou, eu aconselho que o faça, mesmo que esteja com aquelas dietas de só comer carboidratos em noites de luas minguantes ou usando pontos para ver se reduz à massa corpórea.

Houve uma época que eu tentei os pontos. Deu certo?

Até certo ponto sim, perdia cem gramas aqui, outras ali... Nada muito efetivo. O conselho que eu dou é que viaje muito, ande, e coma pouco nesses lugares. Existe os “tours” gastronômicos, mas para quem tem paranóia com esse tipo de pacote turístico, são os que ficam por ultimo em uma agência de turismo...

Quer saber? Ande! Acho que é o melhor no final das contas. Ficar em casa, escutando os dedos martelarem as palavras de um texto é bom, mas fazer só isso é loucura disfarçada, como lobo em pele de cordeiro...

Mas aqui estamos. 50 Sabores, no final da Beira Mar, saboreando um sorvete de Crocante de Castanha e Morango com Suspiros e dividindo com a minha calça. Se não bastasse o desaforo que levei mais cedo do meu chefe - pelo motivo do mesmo solicitei a minha demissão – pedi as contas também com a minha namorada, contabilizando a enésima tentativa de algo sério dar certo na minha vida.

Nunca soube o significado de uma “União Estável” ou “Relacionamento Feliz”. O que conheço foi resultado de uma sucessão de erros que me levaram a estar aqui hoje, me lamentando. Agindo assim, não é a coisa mais sensata a se fazer. Afinal, pra quem já viu tanto nessa vida, trocou de emprego três vezes por levar golpes traiçoeiros dos “colegas” (ou melhor: dos bajuladores), e ansiosas trocas de namoradas, resmungar não irá me levar a lugar nenhum.

Só mesmo aquela sorveteria.

Um bar poderia ser a solução, encontrar os amigos e afogar as mágoas em alguns copos de álcool etílico. Mas não, quero estar ciente das decisões que tomei hoje. Sem falar que ao acordar amanhã, a ressaca não seria das menores.

- Posso me sentar aqui um pouco?

Quem diria que ela estaria ali. A conheci em um Sushi Bar a beira da Virgilio Távora. Digamos que não nos falamos, nem sei ao certo se ela olhou alguma vez para mim. Filha de um amigo do meu pai – muito bela por sinal e igualmente inteligente, mesmo que essas duas premissas não estejam diretamente relacionadas.

- Claro, sem problemas – e me afastei.

Ela me cumprimentou, trocamos algumas palavras, frases soltas. As certezas estavam escassas da minha mente.

- O que fazes por essas bandas? – indaguei

- Tomar sorvete, ora! – E me sorriu.

É provável que eu tenha alguma espécie de chama por belos sorrisos, eles são até melhores do que copos da bebida dos camaradas russos no Picanha do Cowboy.

Sorri também, não acompanhar um sorriso desse chega até ser considerado uma desfeita!

-Você parece até menino se melando desse jeito! – e apontou para a mancha da minha calça.

Rimos. Acho que algumas dosagens de bom humor era o que eu estava precisando naquele momento.

-Veio sozinha para cá?

- Não, não. Estou esperando o meu namorado comprar o sorvete dele – E ela apontou o dedo na direção do balcão de madeira polida. E lá estava um cara de sorte, recebendo o sorvete na casca e procurando pelo seu premio de loteria.

- Tenho que ir agora, a gente se fala mais tarde.

Enquanto ele e sua namorada se vão, o azarado fica a sós com a sua calça manchada. Sorri. Naturalmente, vontade de estar no lugar dele era o que se passava na minha cabeça. Olhei para o que havia sobrado do sorvete, sem muita vontade coloquei na lixeira.

Levantei-me.

Pus as mãos nos bolsos da minha calça e fui à direção oposta ao casal, a caminho da Feirinha perto do monumento em forma de chifre – que nunca soube ao certo o que significa. Quando eu era menor, minha mãe me contou que aquele era conhecido como o “Canal da Merda”, pois os esgotos de alguns prédios da orla marítima eram despejados no além-mar. Nunca soube se era uma lenda urbana ou não.

O nome “dado pelo povo” era apropriado para mim agora, afinal minha vida estava resumida a um pedaço de esterco, mas como diria um primo meu: “É fazendo merda quer se aduba a vida”. Espero que ele esteja certo.

Apenas quis que a dona daquele belo sorriso não estivesse com alguém em seu coração.

E quem disse que ele realmente estava?



por Lucas Arts




~/Ł/~


quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

[Pinot Noir, querido?]



Ainda passei um tempo incrédulo olhando para o telefone.

Não que isso não fosse nada de mais, afinal, era só um telefone velho. Mas ainda não acreditava que isso era verdade. Há causos que nós costumamos ter notícia, mas não passa mais do que uma informação que é armazenada na nossa memória. Mas vivenciar um desses acontecimentos é como um turbilhão de acontecimentos repentinos na mente sã de um indivíduo.

Fiquei ainda um bom tempo esparramado no velho sofá-cama do meu apartamento. Era uma sexta-feira, que tinha tudo para ser mais uma daquelas com um bom “Happy Hour” ao final do meu expediente, mas parece que alguém virou a minha mesa.

O suor ainda me deixava úmido, e não pretendida - tão cedo - abotoar a minha camisa. Estava um pouco abarrotada. Depois de correr atrás de dois ônibus e em meio a um aguaceiro que se abateu na cidade, nem os Classificados do jornal puderam amenizar as gotas sobre mim. Conseqüentemente minha camisa, como o resto de mim, já viram dias melhores.

- Isso é uma porra...

A chuva ainda pareava sobre as janelas do meu apartamento. As resmungas eram os únicos sons audíveis que eu escutei durante quase uma hora. Os tons marrons do sofá iam se multiplicando à medida que ele absorvia o suor e a água do meu corpo encharcado.

Casais discutem, uns mais outros menos, mas ela não deveria ter chegado a esse estremo. Estávamos tão bem, depois desses mais de quatro anos juntos. Só pode ser uma brincadeira, uma miragem moderna. “Sonha Alice!” é a frase mais propícia para essa hora.

Levantei-me e fui pegar o vinho que estava na geladeira, o qual havia aberto e degustado ao lado dela, ontem. Sempre vinha com o seu jeito gracioso e reclamava do meu apartamento. “Simples demais”, “esta tudo tão desorganizado como sempre!”. Sempre sorria ao escutar esses comentários. Nunca me incomodei com o meu pequeno apartamento, afinal, estava juntando dinheiro para o nosso casamento e o nosso futuro apartamento.

E a parede veio ao encontro da garrafa, que por uma ironia do destino – ou quer força misteriosa seja – saiu da minha mão impulsionada pelo meu bíceps, coracobraquial, tríceps e ancôneo (todo esse palavreado e mais alguns outros termos do meu braço esquerdo, que aprendi na faculdade de medicina). O belíssimo Pinot Noir transformou-se em vários cacos de vidro regados ao vinho que ainda sobrara. É nessas horas que eu vejo que um bom vinho não combina com o vidro e o pó da minha morada.

“Siga o caminho do Adriano: Acabou com um relacionamento, por razões diversas, que durava mais de seis anos e está indo todo final de semana para festas!”. Isso é o que a minha razão fica me dizendo, mas o que eu sinto não admite, assim como a minha parte sã.

O vinho respingara na foto que havíamos tirado nas praias do litoral sul. O tom rosado que ficou espalhado pela foto me chamou a atenção. Não que eu nunca tivesse percebido antes. Mas, assim como o vinho pincelou uma nova imagem naquela que já havia, as brigas vêm para que os casais se reciclem e fiquem melhores.

A angústia que tomava conta do meu ser, agora se esvai em meio a um sorriso. “Um bom banho, isso é o que eu preciso agora”. E em meio a um alívio e moleza, dirigi-me ao banheiro, despi-me, olhei-me no espelho e balancei a cabeça. “Engraçado como a vida acontece.”. Era o pensamento que mais voltava para minha mente.

O suor e a água da chuva deram lugar a uma boa toalha, com a qual me enxuguei e, depois de colocado o meu bom e velho calção, me deparei com o telefone fora do gancho sobre o sofá. Tratei de colocá-lo no seu lugar. Mas que surpresa: o mesmo começou a fazer o seu “Trim, Trim” de costume. Antes de pronunciar os meus cumprimentos, uma voz tão conhecida entra pelo meu ouvido:

-Pensei que você estivesse fora de casa ou com o telefone cortado!

Sorri.

-Não precisava ter sido tão bruta agora a pouco amor!

Por uns instantes, só ouvia a sua respiração, e tendo a certeza de que corara.

-Me desculpe querido, o dia hoje foi um pé-no-saco.

Felizmente.



por Lucas Arts



~/Ł/~

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


Santa Claus - 
FIN-96930 Arctic Circle - 
Rovaniemi - Finlândia

[Destinatário Imaginário]

Caro Papai Noel,

Eu sei que você não recebera as cartas que lhe são enviadas. Sei também, que você viveu há muito tempo atrás, trazendo consigo felicidade para aqueles que você conhecia e para os que estivessem passando dificuldades financeiras. Ao invés do bom velhinho ter os seus presentes levados por um trenó e suas renas, colocava sacos com moedas de ouro a serem ofertadas nas chaminés das casas em Mira, Turquia.

Mas como deve saber Sr.Nicolau – espero que não se importe em chamar-te pelo seu nome verdadeiro – eu não sou mais uma criança. Não espero que venha surgir debaixo da minha arvore natalina, comprada a mais de nove anos e de plástico, uma sacola com moedas ou presentes que eram para serem feitos pelos seus ajudantes. Muito do que ganhamos nessa data, fora dado por ser uma data que muitos transformaram em comercial.

Como deve saber Sr.Nicolau, não são todos que seguem essa linha de raciocínio. Há presentes que são dados por pessoas que gostam uns dos outros, que de alguma forma quererem mostrar um pouco do que sentem pelo outro. Presentes que muitas vezes são produzidos em outras partes do mundo, alguns de forma legal, enquanto outros exploram a oportunidade da ganância e, por conseguinte, da mão de obra.

Espero ter sido uma boa pessoa esse ano, não para que a minha recompensa venha em presentes comprados, mas em satisfação interior e aos outros, que por ventura eu tenha ajudado. Mesmo que eu não tenha ajudado a todos que deveria, que eu não tenha me comportado como deveria, mas é como dizem: “Aprendemos mais com nossos erros do que com os nossos acertos”.

Mas venho por meio desta, Sr.Nicolau, dizer que o que eu mais quero ganhar você não poderá me dar. Ninguém, além da pessoa que o possui pode compartilhar comigo. Ele não está na loja mais próxima, pronto para ser comprado. Não será um cartão de plástico, papel, ou qualquer outra forma de pagamento que poderei consegui-lo. É difícil e demorado até que todos possam desfrutar dessa benção.

É um presente, que tornaria a minha vida – como deve ter tornado a sua com a Mamãe Noel – com um gosto especial para ser apreciada de todos os ângulos. Ele engrandece quem o recebe. Mas não é algo que será desfrutado apenas em um dia de minha existência: e sim, na existência de todos os dias.

Enquanto ela e eu não compartilhamos o que sentimos um pelo outro – pelo menos da minha parte - seguirei a minha vida apenas existindo, pois enquanto o que eu sinto não poder ser compartilhado, viver será apenas uma palavra sem significado.

Desculpe-me se tomei o seu tempo, mesmo que não leia o que lhe escrevi, mas não esqueça de mandar os meu cumprimentos para a Mamãe Noel.

Um cordial até logo,

por Lucas Arts





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O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós - Jean-Paul Sartre