Google
WWW http://lucasmlopes.blogspot.com

Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

[ Dois Mil ]


Corpo dolorido. Era o que mais se lembrava enquanto caminhava ao trabalho. Não era pelo simples fato que o dia anterior tinha sido feriado e aproveitara com os seus amigos noite adentro, nem que trabalharia um dia antes da virada do ano: era a dor no corpo.

Pior, não sabia ao certo como foi que ele conseguiu essa proeza. Talvez, sem muito esforço e muito álcool, esbarrara por entre as mesas dos barzinhos que tinham ido, tenha caído no meio da rua ou outra coisa parecida. As dores podem ter vido de situações menos corriqueiras, mas não menos incomuns: um namorado ciumento que viu nele a oportunidade de ganhar um par de chifres. É, não se fazem mais saídas como antigamente.

Chegou ao prédio do escritório suando bicas. Também, pudera, o carro estava na oficina e não havia paradas de ônibus muito próximas do seu ganha pão. Mas foi assim, entre tropeços e tropicões que subiu para a sua sala, ligou o computador, puxou o lenço do bolso e enxugou o suor que ainda não tinha ido embora.

Olhou para tudo a sua volta. Sua mesa, suas canetas e pertences, documentos por despachar... Estavam ali, com a costumeira saudação calorosa de objetos inanimados. Indagou-se, então, se seria sempre assim, se não sairia mais para quem merecia receber atenção, desligaria o celular para se ligar mais, se passaria outro ano na mesmice que resolveu se confortar.

O futuro é incerto, e ele sabia. Temê-lo? Para que tanto alarde se ele é o único responsável pelo aquilo que o é. Muitos são os que fazem promessas de ano novo, pulam ondinhas, manda flores à iemanjá e se esquecem que só há realidade quando sonhos são realizados.

Tens um sonho? Realize-o.

Lucas Macedo Lopes

30 de dezembro de 2009

~/Ł/~

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

[ Sempre ]


Cabelos ao vento em um carro de amigos. Não tem problema, não com o que se preocupar. Todos brincando, rindo e se divertindo, tirando piadas uns dos outros e a paisagem a nos revelar curvas e botecos que nunca existiram e não sabemos até onde irão...

O som ligado competia com o zunido no som. Mas não importava. A vida estava ali, para ser vivida, eu estava aproveitando o vento que corria e não sabia que estava ficando para trás. Maneira de dizer. Para trás ficava mais uma cidade, mais um grupo de amigos, alguns amores, várias dívidas... Quem sabe, levaria algo daquilo para mim, ou o que foi que eu deixei que ainda não notei que perdi?

Sofremos um bocado, não nego, que nunca sofreu. Se eu não tivesse sentido aquilo, se não me importasse com as conseqüências, teria eu ficado entre a cruz e a espada? Talvez eu tenha ficado, ou a espada ou a cruz arrancaram um pedaço de mim.

- Passa a direção, cara. – disse ao meu amigo, o motorista da rodada.

- Hã? Mas já? Você mal descansou de ontem e quer dirigir?

- E por que não?

- Olha, eu não sei se é uma boa. – começou a filosofar o meu outro amigo, sendo ao lado do primeiro – Você ainda não está bem, está filosofando demais..

- Eu? – caímos na gargalhada – Não creio!

- Essa cara de cachorro que perdeu o dono não nos engana...

- Tudo bem que eu não sou essas coisas... Mas cachorro pidão, não!

Rimos novamente. Ele ainda relutou um pouco para me entregar a direção, mas desistiu logo. Ao pararmos numa bodega na beira da estrada, resolveu tomar uma cerveja e me passou a direção.

Dirigi por alguns quilômetros ouvindo as peripécias que fizemos noite passada, descobrindo como a noite podia ser surpreendente, quantos foram os que vieram e se foram. No final, adormeceram com o balançar do automóvel. Pude, então, ligar o som e ouvir em paz alguma boa canção.

Algumas propagandas na rádio, um forró na outra estação, chiado na maioria do rádio... Até que o rádio resolveu deixar os Titãs tocar para mim.

"Eu sei que é pra sempre, enquanto durar... Só peço somente...”

- Que não me deixe sonhar...



Lucas Macedo Lopes

5 de outubro de 2009.


~/Ł/~

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

[ Cartão ]


Um cartão. Só preciso disso: de um cartão. Dê-me um Cartão. Umzinho, pequenino ou não, mas apenas um. Um que me traga coisas boas, que expulse as más, que me traga risos e felicidade. Um, só um. Um que eu entenda o que quis dizer quem me deu – que, com certeza, não me deu por apenas dar – e me foi dado uma única vez. Basta que seja retangular – ou mesmo que tenha todos os lados iguais – mas não me negue o prazer e o desgosto de ganhar um cartão. De condolências ou felicitações, algumas poucas linhas que sejam profundas. Pode ser nu, sem nada escrito de um lado do outro, com endereçamento apenas no envelope. Com imagens, paisagens ou personagens, um por do sol a Beira Mar ou, quem sabe, mais uma piada conhecida e sempre genial do Snoppy ou Garfild. Um cartão: é isso que vos peço, diante aqui de vos, sempre tão serelepe sentado nessa cadeira azul mais alta, senhor. Um cartão. Cartão vermelho.

Cartão de sangue brasileiro.

Lucas Macedo Lopes

28 de agosto de 2009

~/Ł/~

segunda-feira, 27 de julho de 2009

[ Any ]

Percorria os olhos em si mesma. Ali, deitada, como quem não faz questão que o mundo se acabe, olhava os acordes do seu violão. Dava voltas pelos seus pensamentos, acreditando em sonhos passageiros, um mundo doce que se acabava aos poucos pelo seu costumeiro enjôo e as tantas formigas que vinham participar da festa sem serem convidadas.

Passava a mão pelas suas madeixas, tornava-ás todas calmas com a exceção de um tufo cortado pela metade. Olhava assim o tempo como quem não quer nada, uma bebida ou uma água, olhando para o fundo do teto raso do seu quarto. Era sim, era assim que vivia, sem se importar com a chuva que só molhava seu próprio quarto, sem nunca querer deixar São Pedro assumir o seu devido lugar.

Desfaz-se em sombras e lágrimas, juntando todas as suas partes em uma poça só que vai pelo ralo. Quantos outros esse pedaço dela ela não encontraria perdidos pelos encanamentos dos “deixados de lado”? Quem sabe não é o lugar dos “mal amados”, ou melhor: dos que não querem amar. Melhor mesmo? Estar onde se é melhor não se permitir a sentir algo do que ficar estático em um corpo feito de apenas carne?

Não sei, ela também não sabia. Olhava para a taça sem saber o que faria: se tocaria um pouco mais no seu violão ou tentaria arrancar alguns acordes verdadeiros dos corações dos outros. Preferiu ficar ali um tempo ainda a contemplar o céu que não via, via a chuva que não a molhava dos pés a cabeça, tentou ver o sentimento que não sentia. Tentou ver o abstrato em baixo da sua cama, tentou ver o seu amigo ao celular ou qualquer coisa que a ajudasse ao máximo não tocar no outro (ou em si mesma).

Pensou ainda em colocar uma camisa pra cobrir o sutiã, mudar o short do pijama para algo menos informal. Não conseguiu. As lembranças que se apertavam no guarda-roupa não a deixavam se sentir confortável em nada que tentasse vestir. E ainda assim tentava ver a vida através de um conjunto de lentes serelepes, que vem e vão, ajustando o foco e pegando os seus verdadeiros momentos, os seus falsos momentos, os seus falsos sentimentos, os seus verdadeiros sentimentos.

Depois de um tempo, voltou a dormir.

Lucas Macedo Lopes

27 de julho de 2009

~/Ł/~

domingo, 19 de julho de 2009

[ Busca ]


Percorreu os olhos cansados pela casa. Resolveu procurar algo que não sabia o que era pelas estantes já empoeiradas pelo tempo. Olhava, olhava, apenas títulos de um passado tão lido e relido, capas e contracapas amassadas ou um pouco rasgadas pelo manuseio de mãos ansiosas que esperavam que, daquelas palavras, houvesse algum sentido para tanto desentendimento, para tanta falta do que fazer, para tanta chuva e tão pouco tempo. São olhos que, apesar de cansados, novos por uma natureza já gasta de tanto assistir filmes. Quantos são? Nem sabe ao certo, mas ali, entre pilhas de DVDs e alguns velhos VHS, resolveu se sentar ao computador e ver a vida diante de um quadrado animado. Mudando sempre as imagens para que não enjoasse, na esperança de alguma vã fala, alguma voz que saisse dali e a despertasse do sono dos sem sonhos, algo mais humano do que um aparelho ligado a parede. Leu, sem saber, um acaso, resolver fazer caso, olhar pela janela e ver o que eu via, eu só não sabia se entenderia o que é a vida.


Lucas Macedo Lopes

19 de julho de 2009


~/Ł/~


quinta-feira, 30 de abril de 2009

[ Semáforo Farol ]


Cada um com os seus dragões.

Foi o que eu pensei tendo todo aquele espaço para mim. Banco de pano, carro branco em noite escura. Não que não houvesse música para preencher o vazio que três presenças próximas possam causar. Éramos a curta distância que um horizonte pode causar. Poucas coisas vividas para quem conviveu pouco para um tempo infinitamente grande que termina a sete palmos do chão. A areia corre e o ponteiro sempre dá mais uma volta. Cá estamos, numa noite quase chuvosa, um cruzamento não muito movimentado e três estranhos conhecidos.

Não lembro qual era o destino, nenhum álcool foi ingerido naquela noite e a sua lembrança ainda sim se apresenta turva para mim. Não nego que as caronas até àquelas noites foram as melhoras (e continuam sendo). Não me era permito saber das verdadeiras intimidades, naturalmente quando a intimidade está ligada à tênue linha do confiável e traiçoeiro. Posso abrir um jornal todos os dias para saber – como os complexos textos fofocáticos dizem – quem está “in” e quem está “out”, quem já era passando mesmo depois da matéria ser rodada e a especulação da próxima celebridade de 15 minutos, apresentada ao público para logo dar a certeza de mais uma leitura inútil e fútil.

Mesmo para quem guia muito bem e para quem puritana sempre se mostra, um estranho às suas costas é sempre um enigma que não pode ser ignorado. Mesmo ali, no pedaço que me cabia no latifúndio temporário, quem eram que ocupavam a minha frente? Não sou o que ontem fui, não serei o que hoje sou. Quem estava a um banco da minha frente saberiam me dizer no que consiste cada essência do que as compõem? A loucura muita, talvez o orégano estivesse passado da validade, mas o que define o “alguém”? Sim, o simples “alguém”? Como eu posso defender direitos iguais às pessoas que serão sempre tão diferentes? O direito de sermos felizes, mesmo que em casos, para se ser feliz, eu tenho que me valer da tristeza do outro? Não é preciso ir muito longe, em casa vê-se isso, na sala do trabalho ou qualquer outro lugar físico de convivência social.

Quando, nessa vida, passamos da criação dos pais às caixas retangulares multicoloridas, deixamos nos levar por um desejo que não satisfaz aquilo que realmente somos feitos, procurando quase sempre a cura do câncer com um curativo sobre a pele machucada.

Confesso não ter pensado tanto assim naquela noite. Talvez o cansaço, ou a minha tentativa de compreender, impeliram os mais longos devaneios. Ou nenhum dos dois, a companhia me era (e ainda é) agradável ao meu redor, mais do que antes, menos do que virá. Do que não me esqueço, ao olhar o farol mudar do vermelho ao verde, é olhar para além do aperto que o nosso vazio causava, era esse pensar:

- Cada um com os seus dragões.

Citação mediata até demais. Falta-nos a reflexão de um tempo onde o tempo não era apenas dinheiro. Se tivermos que perseguir a perfeição, só pude me aproximar dela ao colocar meus pés no asfalto:

- Lidar com os dragões que criamos e nos são criados, mesmo que um deles seja feito de nós mesmos.


Lucas Macedo Lopes

29 de abril de 2009



~/Ł/~

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

[Toilette]


Naquela posição ainda não deu para evitar. Com as mãos apoiadas na divisória sentia o gosto amargo e o cheio desagradável indo de encontro ao vaso. Se não bastasse isso, a descarga nem fora pressionada pelo usuário anterior. Afinal, quantos são os que deixam um banheiro em um estado deplorável como esse? Difícil é encontrar um em estado decente para uso. Como não há escolha, meu vômito não exige fineza nem pobreza. E eu que tenho que agüentar seus caprichos, como meus malabarismos para que não haja manchas na minha roupa.

- Ta tudo bem? – indaga o servente que entrava no recinto.

Minha resposta? Mais um movimento sonoro na garganta e mais uma onde para fora de mim. Estou precisando maneirar. Não posso nem falar direito que estas dores se apoderam de mim. Seu movimento? Apenas o som molhado do esfregão passeando próximo aos boxes. Ele pareceu não se preocupar realmente com o meu estado. Seu olhara ora pousava em mim, ora pousava sobre o chão.

Tentei me recompor. Respirei. Um suspiro profundo era a esperança de não provocar mais. Já vi o fundo do poço algumas vezes, mas nunca tão perto. Dei a descarga e vi a clareza da água voltar ao seu normal. Virei. Fui descansar minhas mãos sobre a pia. Esse esfregão indo de um lado ao outro, talvez consciente do destino que o aguarda no boxe que acabei de deixar.

- Já vi casos piores ao seu. Bebida? – perguntou sorrateiro;

- Não, não – pelo menos não perdi a minha voz – não se foi algo que eu comi...

- Que comeu? Desculpe a minha intromissão mas, vestido como está, numa região como essa? Ainda tem pano para guardar algum dinheiro?

Verdade. Eu não estava bem apresentável para ninguém. Minhas calças sujas de terra e meu terno caquí ligeiramente rasgado. Não, hoje não será meu dia. Minha cabeça nem sabia se estava no lugar.

- Disse comida por achar o mais provável

- Hum – resmungou sem soltar o esfregão e encarando a sujeira que deixei.

Passamos meio minuto em silêncio, o que mais pareceu meia eternidade.

- Não vai dizer mais nada?

- Eu? E tenho pra quê? Faço este trabalho há doze anos e você contribuiu com esse prêmio pela minha dedicação!

Olhei para meus olhos cansados no espelho, me voltei ao vaso sanitário e o encarei.

- Todos tem dias ruins...

Ele não comentou. Abri a torneira e comecei a lavar o meu rosto.

- Mas se acha que estou ofendido, engana-se. É como eu já disse: já vi casos piores. Não é bebida? Exagerou na felicidade, tomou alguma verdade na cara ou foi uma dose extra de preocupação?

O que um zelador, em pleno banheiro público, quer querendo saber da minha vida? Nada normal acontece. Meu cabelo desgrenhado no espelho. Fechei meus olhos.

- O que está sentindo?

Sentir. Eu ainda consigo sentir?

- O mesmo que em todos os lugares que freqüento: Mofo.

Lucas Macedo Lopes

9 de janeiro de 2009

~/Ł/~

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

[Minha Pequena]


Algum lugar do oceano, de um ano qualquer,

Minha Pequena,

Estão me mandando ao encontro do inferno, a ante-sala da minha morte. Não precisava ser assim. Eu recusei, assim como todos que eu conhecia o fizeram. Eles não terão um destino como esse. Muitos que eu conheço, para não serem descobertos, se refugiaram no interior. Outros arranjaram atestados falsos alegando incapacidade física. E alguns cães – como eu – não tiveram a mesma sorte (ou esperteza, se assim preferir chamar).

Você sabe apenas olhando nas faces dos meus companheiros, Minha Pequena, que este caminho que nos fora destinado será a provável parada final das nossas vidas. Ninguém ainda chorou desde que partimos. Talvez estão guardando o pouco que restam de si para terem uma chama de esperança. Gastei tudo o que eu pude no nosso último encontro – se lembra do meu sorriso amarelo? Sem graça? – e esses animais nos tratam feito vira-latas. Eram para eles estarem sentados nos nossos lugares, e não nós!

É essa prepotência de quem está no comando que me revolta, Minha Pequena. Eles mandam e desmandam sem respeitar as vidas que mutilam e os lares que separam. Só porque alguém não se contenta com o poder que tem e, para conseguir mais e mais, ludibriam e manipulam milhares de almas. O que justifica toda essa empreita se não esse necessidade louca de posses? Bando de porcos... São todos lacaios do mesmo mal que os corrompem. Cegos e burros com esses sonhos narcísicos tolos...

Lembra-se quando segurei-lhe em meus braços? Disse todas aquelas tolices e você calava-me com seus lábios? Sinto como se eles estivessem a beijar minhas aos e acalmassem a raiva que eles passam... Estará deita em sua cama ao ler o que parece ser as minhas últimas palavras? Queria ver o teu olhar sonso uma vez mais... Mas com mil demônios, já nos bastava o seu pai não acreditar no meu futuro e vem uma carta qualquer a chamar-me para o rebanho o qual nunca quis participar!

Espero que esta carta chegue em suas mãos sem nenhuma notícia que eu não tenha sido escrita por mim. Deus abençoe a nós e amaldiçoe quem nos separou.

Do sempre amado seu,

Lucas Macedo Lopes

26 de dezembro de 2008

~/Ł/~

domingo, 28 de dezembro de 2008

[Em Sua Defesa]



Mais um comentário infeliz vindo da sua boca. Um olhar frio não seria o suficiente para fazer a merda ser notada. Até porque a temperatura dos meus olhos não iria condizer com a minha paciência – paciência essa que se esgotara com o passar das semanas. Minha língua não ficaria parada em uma oportunidade como essa.

- Que engraçado, não? – minha mão sobre o meu caderno e meu sorriso em direção ao olhar da minha colega.

- Qual foi, meu chapa, falei algo de errado?

- Não, nada disso, só confirmando se a piadinha teve alguma graça...

- E o que há? O “literato” está zombando, é?

Literato. De onde ele iria tirar isso? Se não bastasse a falta de espaço do seu próprio ego, ainda tinha que aturar a sua costumeira necessidade de atenção. Ainda bem que o fim está próximo e, apesar da aparente proximidade das coisas, o mundo ainda continua grande o suficiente para nos perdemos do que desgostamos. Alguns olhares compartilhavam o mesmo sentimento.

- Longe de mim querer zombar...

- Nem se preocupe em disfarçar, eu sei quando estão tirando onda com a minha cara!

Ainda bem. Pelo menos, qualquer ironia dita não seria em vão. O tom magoado agora se misturava com a sua costumeira tentativa de se impor como líder. Alívo em saber que não era preciso uma chuva de pancadaria para conseguir feri-lo e me machucar.

- Poxa, não precisa falar mal dele assim, não!

O pequeno detalhe é que todos têm amigos. Se ninguém, além de nós dois, tivesse se pronunciado talvez não haveria surgido um mal estar no ambiente. Chegou a ser divertido ficar entre a voz dele e o olhar dos meus irmãos incomodados. Agora, com ela entrando no meio do diálogo, muda-se de figura.

- Eu falei algo de mais?

- Insinuando, sim!

- Pode perguntar pra qualquer um se eu falei alguma mentira...

- Mas eu não esperava você falar isso com ele!

De alguma forma, o réu teve que se intrometer na defesa de sua advogada.

- Eu me, posso fazer uma piadinha mais...

- Ta vendo, pode defendê-lo a vontade, ele mesmo irá contradizer o que você disser.

Ela me olhou meio estupefata com o que eu acabara de dizer. Segurou um pouco da raiva em suas mãos.

- Deus irá julgar os seus atos!

Surpreendi-me com tal profecia. De tantos argumentos, logo esse! Se Deus será o nosso juiz,

- O Diabo se encarregará do resto.

Lucas Macedo Lopes

28 de dezembro de 2008

~/Ł/~

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

[Procura-se]


Procura-se por formosa dama que se encontrava em meio a tantas palavras. Moça essa, de tantas outras que passavam, parecia olhar com a ressaca de quem já lera todas as capas dos livros que estavam ao seu redor no domingo de Bienal.

Procura-se por tamanha beleza perfeitamente distribuída nos seus prováveis 1,70 m. Beleza essa que caminhava, certamente, em alguma sandália de ligeiro salto a qual não pude atender meus olhares. Provavelmente seus pés devem ser tão belos quanto o conjunto da obra.

Procura-se pela aquela que, em blusa estampada, mostrava um puma dourado em uma blusa branca, não menos brilhante do que o relógio em qual mão segurava mimosa bolsa. Mãos bem cuidadas, pele branca e macia.

Procura-se pela alva princesa do castelo que nem ao certo sei se príncipe a tem em seu coração. Qual cavaleiro não se encantaria por tamanho encanto em forma de mulher? Posso não ter a estatura de um guerreiro de armadura em seu cavalo branco, mas não te enganas com minha altura. Meu coração pode ser maior do que qualquer Ricardo que apareça com seu título de nobreza.

Procura-se pela Rapunzel, com seu penteado rabo de cavalo, com seu rostinho lindo, tão distante da torre que habitualmente dorme e que provavelmente é longe da minha. Esse sorriso armado que não quis sair enquanto a admirava, abraçada de quando em vez com o seu irmão mais novo (Será?) e falado ao seu pai, de bigode quase branco, palavras inaudíveis no meio de tanto falatório.

Procura-se pelos olhos mais belos que já vi na vida. Azuis ou verdes? Doce ilusão. Um tom castanho com mel nunca antes fora visto por mim ou a maioria dos mortais. Um Mel abundante, profundo e doce que deve ter já atraído muitas abelhas, assim como atraiu e traiu a minha concentração. Profundidade que nunca vi alcançada por qualquer outra tonalidade do arco-íris, nem mesmo Capitu teria olhos assim: Tão amáveis quanto afáveis.

A recompensa pela busca? A gratidão e a alegria imensurável de um espectador da vida dos anônimos. Quem souber do paradeiro deste pedaço do céu, avise-me quando a avistar navegando perdidamente por ai. Posso não ter asas de penas como as dela, mas o meu par de cera pode lhe fazer uma primeira e última visita.

Lucas Macedo Lopes


16 de novembro de 2008

~/Ł/~

sábado, 4 de outubro de 2008

[Bananas]


- Alô?

- Alô, tem como alguém vir pegar as bananas?

Bananas?!

- Bananas?

- Sim, as bananas aqui no 10.

- Bananas, no 10?

- Sim, tem como pedir pra alguém pegar?

- Você interfonou para qual andar mesmo?

- Para o 13, não é do 13 não?

Desde quando a senhora do 10 envia bananas aqui para casa?

- É sim. Eu já estou indo ai pegá-las.

- Está certo.

- No 10, não é?

- É sim.

Coloquei o interfone no gancho e me dirigi até meu quarto. Bananas? Eu pensava que elas chegavam da feira todos os sábados pela manhã! Tirei a minha já gasta blusa branca e meu calção verde e me vesti de azul para descer os três andares que nos separavam.

A porta da cozinha – que dava acesso ao elevador de serviço – estava trancada. Todas as chaves sobressalentes estavam nas mãos dos outros moradores da casa. Andei novamente pela área de serviço, passei pela porta da cozinha e atravessei o apartamento à porta principal. A tarde continuava o seu curso, tornando o pôr-do-sol – estampado na minha camisa – mais autêntico à medida que o branco-gelo da parede tornava-se mais alaranjado.

Sempre alguém, fora o casal de patriarcas da família, faz uma visita ao décimo andar. Não importa a hora do dia: A porta da frente sempre está aberta e, o que parece, o mesmo acontece com a de trás. Ao olhar para dentro do apartamento, uma vasilha carregada de bananas verdes me encarava. A boa senhora, com seus trajes para exercitar-se, sorriu um sorriso de avó. Entregou-me a bacia, perguntando se não havia problemas se a minha blusa se sujasse.

- Não, não, nem se preocupe, devolvo já a sua bacia.

- Se preocupe com isso não meu filho.

Na ausência de palavras, sorri. Não que eu não tivesse nada para dizer a ela. Antes de dar-lhe as costas, não havia muito a fazer com mãos ocupadas.

- É normal que a senhora do 10 mande bananas para nós?

- É sim, você não sabia não? – respondeu minha irmã enquanto eu colocava as bananas na bancada da nossa cozinha.

Entreguei a bacia e ela me sorriu enquanto eu agradecia. Fui até o elevador social e vi o jardim da janela do hall bem cuidado. Uns dois palmos de altura, talvez. Da porta aberta, uma parede madeira dentro da casa, repleto de adornos que deixavam a luz transparecer.

Quando a porta do elevador fechou atrás de mim e Regina Spektor desabafava sobre seu jeito de amar, um pedaço da minha tarde ficara ali. Não que os óculos dela parecessem antiquados ou que o apartamento lembrasse as conversas na calçada sobre a vida alheia de meados do século passado, mas aquela casa era a cara de avós.

Lucas Macedo Lopes

2 de novembro de 2008



~/Ł/~


sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


Santa Claus - 
FIN-96930 Arctic Circle - 
Rovaniemi - Finlândia

[Destinatário Imaginário]

Caro Papai Noel,

Eu sei que você não recebera as cartas que lhe são enviadas. Sei também, que você viveu há muito tempo atrás, trazendo consigo felicidade para aqueles que você conhecia e para os que estivessem passando dificuldades financeiras. Ao invés do bom velhinho ter os seus presentes levados por um trenó e suas renas, colocava sacos com moedas de ouro a serem ofertadas nas chaminés das casas em Mira, Turquia.

Mas como deve saber Sr.Nicolau – espero que não se importe em chamar-te pelo seu nome verdadeiro – eu não sou mais uma criança. Não espero que venha surgir debaixo da minha arvore natalina, comprada a mais de nove anos e de plástico, uma sacola com moedas ou presentes que eram para serem feitos pelos seus ajudantes. Muito do que ganhamos nessa data, fora dado por ser uma data que muitos transformaram em comercial.

Como deve saber Sr.Nicolau, não são todos que seguem essa linha de raciocínio. Há presentes que são dados por pessoas que gostam uns dos outros, que de alguma forma quererem mostrar um pouco do que sentem pelo outro. Presentes que muitas vezes são produzidos em outras partes do mundo, alguns de forma legal, enquanto outros exploram a oportunidade da ganância e, por conseguinte, da mão de obra.

Espero ter sido uma boa pessoa esse ano, não para que a minha recompensa venha em presentes comprados, mas em satisfação interior e aos outros, que por ventura eu tenha ajudado. Mesmo que eu não tenha ajudado a todos que deveria, que eu não tenha me comportado como deveria, mas é como dizem: “Aprendemos mais com nossos erros do que com os nossos acertos”.

Mas venho por meio desta, Sr.Nicolau, dizer que o que eu mais quero ganhar você não poderá me dar. Ninguém, além da pessoa que o possui pode compartilhar comigo. Ele não está na loja mais próxima, pronto para ser comprado. Não será um cartão de plástico, papel, ou qualquer outra forma de pagamento que poderei consegui-lo. É difícil e demorado até que todos possam desfrutar dessa benção.

É um presente, que tornaria a minha vida – como deve ter tornado a sua com a Mamãe Noel – com um gosto especial para ser apreciada de todos os ângulos. Ele engrandece quem o recebe. Mas não é algo que será desfrutado apenas em um dia de minha existência: e sim, na existência de todos os dias.

Enquanto ela e eu não compartilhamos o que sentimos um pelo outro – pelo menos da minha parte - seguirei a minha vida apenas existindo, pois enquanto o que eu sinto não poder ser compartilhado, viver será apenas uma palavra sem significado.

Desculpe-me se tomei o seu tempo, mesmo que não leia o que lhe escrevi, mas não esqueça de mandar os meu cumprimentos para a Mamãe Noel.

Um cordial até logo,

por Lucas Arts





~/Ł/~


O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós - Jean-Paul Sartre