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domingo, 8 de março de 2009

[ Tanto tempo, nesses tempos ]


- Falou, Joy.

- Até, rapaz.

Olhei para a tempestade que fazia fora da varanda da casa do meu amigo. Não era nada de mais. Meu sobretudo só não cobria a minha cabeça. Ajeitei a gola para que molhasse menos o meu pescoço e segui em frente, com a chuva a encharcar os meus óculos.

Cervejas aos sábados não faz mal a ninguém. Dois amigos de muito tempo, com uma rotina semanal de vasculhar o fundo de um baú de lembranças tão revirado quanto as nossas próprias vidas, sem nunca achar uma novidade no passado ou uma certeza para o futuro. O único saber meu era o álcool, que a muito lutava com o meu sangue para saber quem circulava primeiro no meu corpo. Cada poça de água que eu tentava me livrar, um banho certeiro de um motorista qualquer.

Sem o luar numa noite como esta é igual ao bairro do meu amigo sem as eventuais prostitutas. Algumas bonitas – não minto – mas não era motivo para me servir delas todas as vezes que atravesso essas esquinas. Há muito deixei de julgar suas decisões, assim como do resto dos estranhos que conheço. Não se dá para saber, ao certo, que caminhos as levaram para aqueles becos deploráveis. Mas o que me leva para todas as quintas por esses becos é a certeza de que o tempo passa e os nossos companheiros se resumem a alguns poucos chopes.

Meus dedos brincando com as chaves nos meus bolsos bem molhados, e todos aqueles desejos dos outros passando pela minha cabeça. “Quero logo o final-de-semana!” ou “E essas férias que não chegam logo...”. Para que aproveitar apenas dois, dos sete dias de uma semana que se tornam cada vez mais curtas? Não, não, prefiro que o sábado ainda demore mais para chegar enquanto eu estou preso no meio de uma terça-feira. Até aquela chefa insuportável está virando uma pessoa aturável para mim – meus colegas da firma dizem que eu estou ficando no louco, no final das contas.

Dias curtos para quem trabalha, noites longas para quem espera sob um ponto de ônibus. As ruas desertas não me animaram com o rio que corria por entre elas. Prefiro continuar o meu percurso a pé. Caminhando um pouco mais, vi uma padaria aberta. Um café viria a calhar.

- Bom dia, senhor, o que deseja?

- Hum... um café, tem como?

- Bem, a menina do café não chegou ainda, mas vou lá dentro ver o que eu tenho. – respondeu graciosamente a atendente.

Do lado de fora, a pilha de jornais bateu com força na porta do estabelecimento. Cinco da manhã e nem sinal do sol aparecer. Na manchete, letras garrafais dizendo “Feliz dia das Mulheres!”, um caderno no jornal especialmente feito para aquele domingo, oito de março, e eu a ler a comemoração internacional.

Sentei-me.

Olhei para a xícara posta sobre o balcão e fui me esquentando um pouco a cada gole, enquanto a atendente recolhia os jornais e esperava os outros funcionários chegarem.

- Isso que é disposição!

Surpreso, olhei para a mão posta sobre o meu obro, e uma amiga de tempos sorria para mim. Foi interessante ver o que o tempo tenta fazer com alguém. Apesar de ter eventuais marcas de sua vivência, ele continuava linda como era nos tempos dos estudos.

- Não se preocupe, nos falaremos ainda – disse ao me despedir dela e vê-la sumir no meio da chuva que caia.

Essa vida com tantos compromissos inúteis e o que realmente importa vem todo domingo comprar pães aqui. Não quero que as férias cheguem logo, ou que as semanas se resumam a dois dias. Nem pensar em desperdiçar uma noite sem luar ou manhã sem sol. Essa vida moderna que não nos deixa aproveitar as simplicidades que a vida tem a oferecer. E não é raro encontrar alguém que reclame o tempo passa rápido.

- Tanto tempo, nesses tempos, e nem vemos.

Sorri.



Lucas Macedo Lopes

8 de março de 2009

~/Ł/~

3 comentários:

Luana Silva disse...

o tempo é a coisa mais realativa que conheço. As vezes queremos que ele se arraste, outras vezes queremos que passe voando. E parando para pensar: "deixa quieto". Cada coisa no seu tempo e que seja brilhante enquanto dure todos so momentos! só nos resta aproveitar.

MARLO RENAN disse...

Excelente conto. Bem reflexivo. ^^
O tempo realmente é uma das coisas mais relativas que há. Não sei se devo ficar alegre ou desapontado com isso.

Abraços!

Victória disse...

Eu AMEI O TEXTO,assim como eu amo todos os outros.
Tempo é nosso dilema de todos os dias.Saber como e onde aproveitar.
Beeeeijo,meu amigo poeta !:D

O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós - Jean-Paul Sartre