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quinta-feira, 18 de junho de 2009

[ Exílio ]


- Bem, é assim, sabe...


Interrompi-a estendendo a minha mão em um movimento não muito brusco. Não estava dando a atenção suficiente, bebendo os goles irregulares que o bebedouro me agraciava. Há tempos que espero por essa conversa e não queria que uma sede atrapalhasse tudo.


Ao olhá-la, escorada, perto, algo ficou estranho depois que mostrei-lhe minha mão. Ficara nervosa e não entendi o porque dos seusolhos começarem a ficar cheios d’água. Ela se virou em tomou o rumo do corredor que levava aos banheiros. Vendo-a correr assim, cabelo ao vento escondendo o rosto, nem me passara o que eu tivesse feito para tê-la deixado assim. Tentei acompanhar seus passos já tão distantes dos meus.


Mais a frente, ela se apoiara na parede na tentativa de se recompor. Tentei olhar em seus olhos marejados que, de quando em vez, queriam se enxugar mas não queriam se mostrar fracos à um estranho, à mim. Ela se desvencilhou dos meus olhares e tomou o rumo contrário ao que tinhamos feito, querendo me deixar preso ao seu prórprio passado, sem a intenção de mínima pretenção de me deixar fazer parte de seu futuro.


Olhei-a passar por mim assim, serena, sem se mostrar em fúria que é resultado da dor que tomara o seu ser. Seu semblante voltara a relaxar, deixando se mostrar um pouco da sua habitual cara de sonsa, desligada de quaisquer eventos futuros, ignorando o aflito protagonista desta trama, sem saber das vígulas que ainda estavam por vir. Trama essa que tomara os rumos inesperados de uma sexta-feira à noite para prender o telespectador até a próxima segunda-feira.


Segurei-a para que não fugisse mais, para que não sumisse, para que o medo maior fosse do que seriamos quando saissemos daquele corredor abarrotado de olhares esparsos conhecidos. Ela parou ofegante ao me encarar, escondendo o choro que começara a não controlar mais. Segundos de eternidade plena de uma profusão de sentimentos. Passei a mão em seu rosto para que ela não se desperdissasse em lágrimas, indo de encontro a um lugar onde será pisada por tudo e por todos.


- Calma, certo? – disse assim, sem saber que dizia.


Ela apenas me olhava. Seu cabelo já não se revoltava mais com o vento. Eu apenas a olhava. Minha camisa ainda não secara da correria que tive que fazer para não perdê-la de vista. Mas, mesmo assim, tão perto, tão longe de mim, distantes um do outro, por causa de uma música, um evento inusitado. Apenas a execução de um tema que tornou tudo o que fizemos, em nove dias de desencontros, o exílio de nossas vidas. Nada mal o que uma seresta pode causar, bem mau o que depois eu vim a colher. Por fim o fim que não veio mais cedo. A espera pela fala vacilante que não vem.


- Certo... Bem, é assim, sabe...



Lucas Macedo Lopes

18 de junho de 2009

~/Ł/~

Um comentário:

Ana Valente disse...

A cada texto teu que passa eu vejo novidade. Depois de um certo texto, ou talvez acontecimento, o que escreves é variável, nao tao previsivel ( e nao digo que previsibilidade seja algo ruim, talvez até a troque por "estilo próprio").
Apaixono-me pelo que fazemos cada vez que leio essas suas palavras, e dá vontade de fazer mais.Ah, como queria ter mais tempo pra devanear.

saudade de voce, diplomata seno de 30.

O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós - Jean-Paul Sartre